Under the Mistletoe


24 de dezembro, 11 da manhã



Um engarrafamento enorme em plena véspera de Natal. estava em sua Mercedes vermelha, já ficando impaciente com a demora e o calor infernal, incomum nessa época.
- Ugh – disse ele, batendo a cabeça no volante – e ainda tem esse fusca na minha frente, atrapalhando tudo! Quem hoje em dia ainda tem um fusca? – e resolveu ligar o rádio, pra ver se conseguia se distrair. – Músicas de Natal?! Ninguém merece! – e resolveu deixar em uma rádio que estava tocando Lady Gaga.
O trânsito finalmente começou a andar e o fusca verde acelerou, e resolveu acompanhar o ritmo. E então, o sinal ficou amarelo.
- Vai, acelera! – gritava, como se a pessoa do carro da frente pudesse ouvir.
Mas não foi exatamente isso que aconteceu. O fusca verde freou bruscamente, mas ele não freou a tempo. E bateu na traseira do fusca.
- Ah não... – e deixou a cabeça cair novamente no volante.
E então ela saiu do carro e foi conferir o estrago. E ele saiu também, pra tentar se desculpar. E então, ao vê-la, ficou embasbacado. Ela usava um vestido amarelo florido e calçava botas de caubói. Ele estranhou um pouco as botas, mas não deixou de admirá-la, achando-a fabulosa e, de certo jeito, atraente pra ele, como naqueles filmes água-com-açúcar, em que acontece amor à primeira vista.
- O que você fez?! – disse ela, com cara de desespero e passando as mãos pelos cabelos – você não olha por onde anda não? E então, vai só ficar parado olhando? Não vai dizer nem fazer nada?
- Er, eu... Ai me desculpa, eu não... Mas peraí! A culpa não foi minha! Você podia ter acelerado no sinal amarelo sabia? Não tem que parar não! Mas você freou! Eu não tenho visões não ô!
- Cara, a culpa não foi minha! Foi o roda-presa ali da frente que resolveu parar do nada! – disse a garota, apontando pro carro da frente, uma BMW azul. E então ela andou até a traseira do fusca. – Droga! Agora esse carro não vai andar mais! E agora?!
- Eu... eu pago o conserto do carro.
- O quê?! Não, eu não to nem um pouco preocupada com esse carro aí. Ele já tinha que estar no ferro velho mesmo. Eu to preocupada é em como eu vou carregar todas essas sacolas e ainda chegar em casa a tempo...
- Eu posso pagar um táxi pra você...
- Um táxi? Nesse trânsito? Não, obrigada, prefiro ir a pé.
- Não, não. Então faz assim. Eu chamo um guincho pra levar o seu carro e eu te dou uma carona até em casa. – disse, já pegando o celular.
- Não, não preciso. Eu...
- Nada disso! Eu insisto em levar você! Eu que causei esse estrago todo! Vamos, eu te ajudo com as sacolas. – foi até a porta do carro, e se surpreendeu com a quantidade de pacotes que encontrou lá dentro. – ‘mulheres’ – pensou. Terminou de guardar tudo no porta-malas e o guincho já estava chegando. Abriu a porta do passageiro para deixar a garota entrar, já que os motoristas estavam todos impacientes e começaram a buzinar enquanto ultrapassavam a Mercedes.
- Então, vamos né? – ele falou, enquanto ligava o carro, e sorriu pra ela. – A propósito, meu nome é – e estendeu a mão para a garota, que ficou apenas olhando para a mão. Quando ele ia recolher, ela pegou a mão dele e sorriu – E o meu é . Mas pode me chamar de .
- Ok , você pode me chamar de – falou sorrindo.
Depois de alguns minutos de silêncio constrangedor, resolveu perguntar sobre a vida de .
- Então... O carro não é seu né?
- Não. Aquela lata velha é do meu irmão, o meu carro tá na oficina.
- Ah. Que carro é o seu?
- É um Audi azul.
- E todas essas compras...
- São os últimos presentes. E o que tava faltando pra ceia de Natal. Falando nisso, você quer ir?
- Ah, não. Não obrigada, eu... eu já tenho outro compromisso. É, eu não posso ir...
- Hm. Ok, sem problemas.
O silêncio voltou a incomodar os dois, até que perguntou se podia ligar o rádio. Ela ligou, e foi passando as estações, até parar em uma que estava tocando ‘Deck the Halls’, cover de alguma banda nova.
- Você tem certeza que quer ouvir isso? – ele perguntou, se virando para olhá-la.
- Acho que sim. Por quê? Você não gosta? Eu posso mudar se você quiser...
- Não, sem problema, pode ouvir. Deixa aí mesmo.
Claro que tinha problema. não gostava de natal, e as músicas dessa época o deixavam irritado. Mas gostava, então ele achou que poderia sobreviver a alguns minutos.

Finalmente chegaram a casa dela. E ele desceu para ajudar com as sacolas.
- Não precisa! Eu...
- Sem problema, eu faço questão de ajudar.
se atrapalhou um pouco com as compras para procurar as chaves.
- Com licença – disse , segurando também os pacotes que estavam com ela, e ela sorriu, agradecida. – Isso é... uma flauta? – falou, olhando pra dentro de uma sacola.
- Bom, - e abriu a porta – eu tenho sobrinhos – e sorriu. – Quer entrar?
Ele bem que queria, mas achou melhor não aceitar.
- Não, obrigada, eu tenho... tenho que ir.
- Ok, - disse ela, sorrindo triste – então, acho que a gente se esbarra por aí né? Obrigada mais uma vez.
- Não fiz mais do que a minha obrigação – e entrou no carro, acenando para , que ia ficando pra trás.
Então ela entrou em casa, e colocou as sacolas em cima do balcão. Olhou no relógio de parede, 2h. Até as 8h tinha muito o que fazer. Começou a embrulhar os presentes, e não pôde deixar de sorrir ao encontrar a flauta no meio dos presentes.

4 horas



estava vendo os últimos detalhes na cozinha, e ia subir as escadas, quando seu telefone tocou. Olhou no visor: .
- Fala aí ! Não vai me dizer que você não vem né? O que foi dessa vez? O seu braço, ou o seu carro, ou o cachorro do vizinho? – disse, sentando no balcão e balançando as pernas, enquanto esperava qual seria a explicação do amigo dessa vez.
- Nada disso . Eu vou sim. Eu só queria avisar que eu vou levar uma pessoa.
- Uma pessoa? Tá namorando agora? Ela é bonita?
- Namorada? Não! É um amigo meu.
- Tudo bem. Mas quando que eu vou te ver com uma namorada hein? – ela falou, sorrindo.
- Não sei meu bem. Chego as oito ok?
- Aham, sei. Te vejo mais tarde. Beijos.
nunca chegava na hora, nunca aparecia com uma namorada, e sempre tinha um problema pra resolver. Mas era o melhor amigo que alguém poderia ter. ela jogou o celular em algum lugar e desceu do balcão e subiu as escadas. Chegando no andar de cima, foi direto para o banheiro. Tomou um relaxante banho, e depois foi até o quarto, se trocar. Admirou mais uma vez o (vestido vermelho) , que tinha escolhido três semanas antes, e os sapatos, que ganhou de sua mãe. Se vestiu e depois partiu pra maquiagem.

7h30m



A mesa já estava pronta, e estava admirando sua árvore de natal, quando a campainha tocou. Alguns convidados começaram a chegar, e deixar os presentes embaixo da árvore. Chegou seu irmão e perguntou pelo carro.
- Ah David, aquela lata velha? Bom, nós tivemos um pequeno acidente hoje de manhã...

8h, e as crianças estavam correndo pela casa. Depois de salvar um vaso, ouviu a campainha tocar.
‘Será que o vai chegar na hora mesmo?’ – pensou, indo abrir a porta. Bom, ele tinha chegado, mas não estava sozinho.
- Você? – disse perplexa, quando viu junto ao amigo, parados à porta.
- Vocês já se conhecem? – perguntou , ao ver os dois.
- Oi acenou para ela.
- Er, oi. Ah, desculpem, entrem por favor. Hum, , porque você tá usando um cachecol?
- Frio. – disse ele, entrando e deixando o casaco mais grosso no chapeleiro.
- Então, de onde vocês se conhecem? – perguntou a .
- Bem, faz um tempão que a gente se conhece, desde o colegial. E vocês dois?
- Conheci o no conservatório, há uns três anos...
- Quer dizer então que você é música?! Sabe tocar o que?
- Eu, música? Haha, não mesmo, eu...
- Claro que é! Ela toca muito bem piano, violão... – disse , interrompendo.
- Mesmo? Que bom... – falou, rindo.
- E você , faz o que da vida? – perguntou.
- Ele é músico também, só que profissional. Toca em uma banda – interrompeu mais uma vez.
- , tem como você, hm, dar uma voltinha por aí? Tem bebida lá na cozinha tá? Vai lá – empurrou o amigo para a cozinha, porque ele já estava irritando, e ela e continuaram conversando na sala.
Hora do amigo secreto, e todos estavam na sala, sentados em poltronas e as crianças espalhadas pelos tapetes.
- E o meu amigo secreto é... Vallery! – David tirou a própria esposa. – Sua vez agora querida.
- Ok, o meu amigo secreto é o – disse ela.
- Ah que sem-graça Vallery! Você não sabe brincar disso, vai sentar vai. – falou rindo e empurrando a cunhada. – Sua vez .
- Tá bom. – ele levantou-se – meu amigo secreto é uma pessoa muito sem-graça, chata e mentirosa, mas mesmo assim eu a amo. É você .
- Que emoção! Obrigada amor! Posso abrir agora? – e puxou a fita da caixinha – é uma... meia furada?! O que é isso ? Quantos Martínis você tomou?
- Brincadeira ! Seu presente de verdade tá aqui ó. – entregou uma caixinha azul-bebê com uma fitinha branca e abraçou a amiga mais uma vez.
- Pelo menos a caixinha é bonitinha... – e dessa vez tinha uma corrente prateada com um pingente de coração, com alguns strass cor-de-rosa – que lindo ! Uau, muito muito obrigada – e abraçou o amigo mais uma vez.
Todo o ‘ritual’ do amigo secreto acabou e eles foram cear. Depois de algum tempo, os convidados começaram a ir embora.
- , você viu o por aí? – perguntou.
- Ué, não... Acho que eu o vi pela última vez na hora do amigo secreto. Por quê?
- Bom, ele veio no meu carro, então acho que ele deve querer carona pra voltar né?
- Tem razão. Pode esperar mais um pouco pra ver se ele aparece, se ele demorar demais você vai e depois ele chama um táxi.
- Certo. Vou esperar ele mais um pouco. Quer ajuda em alguma coisa?
- Não, obrigada. Não vou fazer nada agora mesmo... – e vestiu um casaco – É impressão minha ou tá esfriando?
- Tá mesmo – levantou-se e foi até a janela – E também pudera, já tá nevando...
- Nevando?! – correu até a janela também – Perfeito!
- O que? Você nunca viu neve?
- Claro que já vi seu bobo! Mas é que dizem que quando a primeira neve cai no dia de Natal, é sinal de que algo muito bom vai acontecer! Vem, vamos lá pra fora! – falou, calçando umas botas que estavam perto da porta.
- O quê? Não! É frio...
- Claro que é! É neve! – então ela puxou o braço dele, e foram para o lado de fora – A gente tem que aproveitar antes da nevasca!
- Eu, não... – ia dizer alguma coisa, mas escorregou e quase caiu, mas conseguiu segurá-lo a tempo, e o puxou pra cima de novo, ficando próxima dele. Aliás, próxima demais. Tanto que podia sentir a respiração quente dele próxima a seu rosto.
ainda pensou em se afastar, mas sabia que não conseguiria. A garota estava tão perto dele... Então ele foi aproximando seu rosto do dela, devagar até demais, com medo da rejeição, mas ela não se moveu. Então seus lábios se encontraram num beijo suave,sem pressa, e ela passou os braços pelo pescoço dele. Ela deu passagem pra língua dele, e a segurou pela cintura, notando que ela tinha ficado na ponta dos pés. Cortaram o beijo e ficaram se olhando por alguns segundos, até que ela olhou pra cima e sorriu pra ele.
- , olha pra cima.
- Ah, isso é um...
- Visco. E sabe o que dizem sobre eles, certo? – sorriu mais amplamente.
- Sei sim, um beijo sob o visco é como uma promessa de casamento, felicidade e longevidade...
- Sabe, hoje eu acabei gostando mais ainda do natal... – agora segurava a mão dele.
- Eu não. Continuo não gostando do natal, mas agora sei que ele costuma trazer coisas boas...
Deram um selinho, e continuaram andando pela rua, agora já coberta pela neve. O que acharia dos próximos natais? Bom, isso só o tempo dirá...


Fim



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